CIRCO LIVRE EM MOVIMENTO
desafios e transformações através do lúdico-pedagógico
Palavras-chave:
pedagogia da autonomia, brincar, fenomenologia, lugaridadeResumo
É um diagnóstico recorrente, quase um lamento compartilhado, a ideia de que a “cidade grande” nos desaprendeu a brincar. No cotidiano da pesquisa participante da iniciação científica, realizada no Parque Raul Seixas, em Itaquera, essa percepção manifesta-se com nitidez nas falas de adultos e idosos da comunidade. Ao observarem os jogos de equilíbrios com pernas-de-pau ou o manuseio dos bambolês e bolinhas, a reação é unânime: “brincava muito disso na infância, hoje já não existe isso”.
Essa percepção de que a cidade grande nos desaprendeu a brincar aponta para uma perda de ludicidade, já salientada por Huizinga (2001). Sob a lente de uma fenomenologia das emergências (Marandola Jr. 2020) da pedagogia da autonomia (Freire, 2021) e da filosofia (Han, 2017. Huizinga, 2001. Krenak, 2019), este ensaio visa entender o Circo Livre da Raul (CLR) não como um mero encontro de circo ofertado à comunidade como objeto de consumo educativo.. Em vez disso, trata-se de entendê-lo como uma irruptiva “dança-da-teimosia”: um modo adverbial de habitar o território, em que o brincar (ludus) deixa de ser um substantivo — uma coisa que se faz — para tornar-se um modo de ser lúdico no mundo, desafiando a funcionalidade zumbi da metrópole através da presença e encontro com a alteridade.
Trata-se, em última instância, da manifestação de algo inerente ao espírito humano. A revelia de toda atribuição de utilidade e sapiência ao gênero humano; a vida não é útil, como compreende Krenak, conclusão que se faz presente nessas tantas lugaridades incipientes, que tensionam nossa atitude natural que relativiza o absurdo funcionalista moderno.
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